“O que parece hiperdesleixo, na realidade pode ser hiperidrose: mãos úmidas, pés que pegam sujeira com facilidade, cadernos com ‘orelhas’ e sujos, blusas sempre molhadas e desbotadas nas axilas”.

1- O que é a hiperidrose?

Hiper-hidrose, ou hiperidrose (escreve-se das duas maneiras), é uma situação de suor extremo, pela qual o nosso corpo passa, podendo ocorrer normalmente (durante exercícios físicos exagerados ou em dias muito quentes), ou por alguma patologia (doença).

O rubor facial(vermelhidão súbita da face), suor intenso e incontrolável nas mãos, nas axilas, na face, associado à sensação de embaraço e ansiedade para sair da situação que o originou, leva à um sério problema denominado fobia social.

 Esse mal-estar é causado por um funcionamento exagerado do sistema nervoso simpático (doença neurológica).

Estes sintomas podem ser curados ao se retirar ou interromper no tórax, os nervos que regulam o suor das mãos, das axilas e do rosto, bem como, o rubor facial, com uma cirurgia chamada de Simpatectomia Torácica Endoscópica Bilateral.

Para os pés a cirurgia é no abdome.

Da primeira cirurgia de hiperidrose descrita (1920) até hoje aconteceram muitas evoluções. A utilização de material endoscópico auxiliou no aprimoramento da técnica, Em 1993, criou-se uma sociedade com o intuito de pesquisar e divulgar o método de cirurgia toracoscópica minimamente invasiva para a cirurgia de hiperidrose, a ISSS (International Symposium on Sympathetic Surgery). Aconteceu no ano de 2006 no Brasil, o sétimo encontro de cirurgiões dessa especialidade.

Iniciamos em dezembro de 2000 com essas cirurgias e até neste ano de 2008 já foram por nós operados mais de 1000 pacientes, sendo a mais jovem com 8 anos e o mais idoso com 70 anos, com zero de infecção até então.

A hiperidrose pode ser primária (doença neurológica causada por mau funcionamento do sistema nervoso simpático) ou secundária (causada por outras doenças como: lupus, obesidade mórbida, diabetes descompensada, e outros).

2- Como a hiperidrose primaria se manifesta?

Com suor excessivo, que acontece em diferentes partes do corpo, sendo que os locais de maior freqüência são: mãos axilas e pés com a media de 60%, mãos e pés (25º/o), axilas (14%), região crânio-facial (1,5%), e ainda uma miscelânea, na qual a hiperidrose se manifesta em todas essas áreas do corpo, em maior ou menor grau.

 0 problema é desencadeado por estímulos de ansiedade e de tensão, situações em que o hiperidrótico tem a sensação de que está derretendo. 0 paciente literalmente pinga, suando em gotas.

 A causa da doença é desconhecida para cerca de 60% dos pacientes com hiperidrose primária, mas trabalhos científicos em andamento tentam provar a tese de que os demais portadores de hiperidrose, em torno de 40% tem causa de origem familiar.

3- Quais são as queixas mais freqüentes de um hiperidrótico?

As mãos que chegam a pingar promovem uma severa limitação para as atividades estudantis, danificando os cadernos e estigmatizando as crianças portadoras do problema, que são freqüentemente criticadas e até rejeitadas pela sua turma de colegas e professores. Aquilo que parece hiperdesleixo, na realidade é hiperidrose.

Profissionais que trabalham com luvas sentem o suor pingar pelo braço, instrumentos de corda enferrujam e os atletas têm severa limitação de desempenho em esportes como basquete, vôlei, tênis.

Nas axilas, a sensação de falta de higiene, principalmente se acompanhado de odor forte (bromo-hidrose), gera fobia social tão intensa, que os pacientes evitam festas ou qualquer encontro social. 0 simples fato de falar ao telefone faz gotas correrem pelos braços e pela parte lateral do tórax. Mesmo no frio intenso, abaixo de zero, o fato de usar um paletó funciona como desencadeador do suor, ou seja, no frio, o agasalho piora os sintomas.

Na face e na cabeça, a hiperidrose é altamente constrangedora, pois gera impressão de insegurança. Nas mulheres, esses sintomas podem levar a um diagnóstico errado de menopausa precoce, e a um tratamento inadequado. Ao deitar, muitas vezes esses pacientes suam intensamente a cabeça chegando a molhar o travesseiro.

Nos pés, além do mau cheiro contínuo pelo excesso de umidade, acontecem quedas ao solo, com freqüente torcer dos tornozelos, dificultando e até impedindo o uso de salto alto entre as mulheres. Calçados de couro deterioram e rasgam com facilidade.

 4- Algum alimento pode provocar a hiperidrose?

Alimentação inadequada, como o uso excessivo de chá, de café, de refrigerantes com sabor cola (todos têm alto teor de cafeína) provocam o estímulo acentuado do sistema nervoso simpático e, conseqüentemente implicam no aumento exagerado do suor.

 5- Como é o tratamento clínico da hiperidrose primária?

Inicia-se com tranqüilizantes e/ou antidepressivos, mas existem medicações que também atuam diretamente sobre o sistema simpático, embora com eficácia sempre pequena.

Toxina botulínica e acupuntura auxiliam no tratamento, de casos específicos.

 6- E quanto ao procedimento cirúrgico?

O consenso do sétimo ISSS (International Symposium on Sympathetic Surgery), ocorrido no ano de 2007 no Brasil define: tal procedimento deve ser realizado com anestesia geral, entubação oro-traqueal (seletiva ou não), posicionamento do paciente na mesa cirúrgica a critério do cirurgião, inativação (cirurgia) da cadeia simpática, por secção e retirada da mesma ou por termo-coagulação, ou por clipagem pré e pós-ganglionar.

 Independente do método escolhido, o resultado do pós-operatório é semelhante, não implicando em aumento ou diminuição da dor e da hiperidrose compensatória.

 7- O que é hiperidrose compensatória?

É o suor aumentado em outras áreas do corpo, no pós-operatório de simpatectomia, e apresenta-se em média com a seguinte intensidade: leve (70%), moderada (23%) e intensa (3%). Aparece mais comumente na região anterior e posterior do tórax (peito, costas), abdome e região posterior da coxa.

A hiperidrose compensatória só acontece em momentos especiais, como nos exercícios físicos vigorosos (academia, jogos etc.), nas temperaturas acima de 35 graus ou nos momentos de extrema ansiedade. Diferente dos sintomas da hiperidrose primária, que mesmo em ambientes com ar condicionado, sob mínimos estímulos, o suor estará sempre presente.

 A definição da técnica de como fazer a cirurgia na cadeia simpática já está bem definida.

 A grande busca que enfrentamos hoje está em como melhor conseguir a técnica de desfazer a simpatectomia, que acontece nos casos de hiperidrose compensatória indesejável. Apesar de estar presente em apenas 3% dos pacientes, é o que atualmente representa um grande desafio aos cirurgiões da especialidade.

 8- Onde ficam as incisões e como serão as cicatrizes?

A cirurgia é feita por vídeo, com um único corte na região axilar, em torno de 5 a 6 milímetros, pelo qual introduzimos a câmera que envia as imagens para o monitor de vídeo e, através de uma perfuração de 2 milímetros o instrumental de cauterização é introduzido no tórax, quando então, seccionamos e coagulamos a cadeia simpática. Para a clipagem, também é necessária uma incisão adicional de 5 milímetros na região axilar. Os pontos de sutura são intradérmicos e as cicatrizes, se tornam praticamente imperceptíveis em 5 meses.

Não utilizamos a incisão na linha mamária inferior, para preservar a estética dos pacientes, principalmente nas mulheres, que representam 65% da nossa estatística. Na maioria das cirurgias as imagens são gravadas e entregues ao paciente em um DVD, em algumas isto não acontece por falhas técnicas na gravação.

O tempo do procedimento cirúrgico é, em média, de 30 minutos, sendo que o paciente permanece internado de um dia para o outro.

A dor pós-operatória, localizada na região torácica, na maioria dos casos é de leve a moderada intensidade e, em 14 horas, já praticamente não existe.

 O retomo as atividades profissionais ocorre com 3 dias em média, e aos exercícios físicos mais vigorosos após 2 a 3 semanas.

 9- Os resultados da cirurgia demoram a aparecer?

O resultado operatório é imediato e surge ainda em campo cirúrgico, após 40 segundos de secção da cadeia simpática, quando já observamos o aumento da temperatura das mãos em até 1,5 graus e interrupção do ato de suar.

10- Todo paciente que tem suor excessivo pode ser operado?

O que realmente implica no sucesso do procedimento cirúrgico é a definição correta de qual paciente pode ou não ser operado, e quais os gânglios que podem ser retirados.

Casos mal selecionados denigrem a técnica e desmotivam outros pacientes, que têm o perfil ideal para o tratamento cirúrgico.

O cirurgião deve obedecer aos limites do Índice de Massa Corporal (IMC) do paciente e observar outras possíveis áreas de sudação. Exemplo: se a hiperidrose primária do paciente ocorre nas mãos e/ou nos pés, mas ele apresenta sudação aumentada (equivalente a um pouco menos da metade do seu suor de hiperidrose) nas costas, abdome, tórax, nádegas ou coxas, há um risco em torno de 20% de desenvolver hiperidrose compensatória no pós-operatório. Então, para esses pacientes não é recomendável o procedimento cirúrgico. Esses dados devem ser bem avaliados com seu cirurgião, que é quem ajudará na definição final.

 11- Existe risco de lesionar outros nervos durante a cirurgia?

A anatomia da cadeia simpática é bem clara e definida, e junto a ela no corpo humano não tem a presença de nenhuma cadeia ou ramos nervosos que impliquem em perda motora, ou seja, na perda de força muscular pelo paciente. 

Sempre existirão riscos em procedimentos cirúrgicos, por isso, deve-se optar por profissionais qualificados, que tenham um perfeito conhecimento da anatomia humana e da doença, minimizando-se assim as eventuais complicações.

12- Existe alguma contra-indicação para simpatectomia torácica?

Em alguns casos de hiperidrose axilar, com pacientes obesos ou outras áreas que não as primárias e que já suam muito, utiliza-se, com anestesia local, a técnica de curetagem aspirativa das glândulas axilares, procedimento semelhante à lipoaspiração, mas, nesses casos, o que é retirado são as glândulas sudoríparas, e não o tecido gorduroso.

Pacientes que sofreram traumas torácicos ou infecções pulmonares, com derrame pleural ou cirurgia cardíaca prévia podem ter contra-indicação para essa cirurgia. Essas doenças pré-existentes promovem aderência da pleura (membrana que envolve o pulmão) à parede do tórax, impedindo assim que o pulmão abaixe durante o procedimento cirúrgico e deixe exposta a cadeia simpática, para que esta possa ser trabalhada.

As aderências pleurais acontecem em 20% dos casos operados e, mesmo assim, pode-se reverter o quadro de hiperidrose em até 98% dos pacientes. Quando as aderências oferecem risco de sangramento, a cirurgia é suspensa e é cogitado outro procedimento, com corte cirúrgico maior, ainda minimamente invasivo e com a mesma eficácia.

 13- Que outras doenças podem ser tratadas pela simpatectomia torácica?

Algumas doenças, quando não solucionadas depois do tratamento específico como: rinite vaso-motora refratária, síndrome do QT longo com síncopes, taquicardias refratárias, angina refratária, distrofia simpática reflexa, dor causada por câncer de pâncreas e doença de Raynauld em membros superiores.

 14- Os convênios cobrem a cirurgia de Simpatectomia Torácica?

Sim. A maioria dos convênios entende ser a hiperidrose uma doença e, conseqüentemente autorizam a cirurgia.